05 julho 2015

Somos colecionadores de abismos. Mas ainda somos feitos de sonhos



Rebeca Bedone

Então você levanta cedinho. Lava o rosto e o sono, toma seu café da manhã bem rápido — ou não toma porque está atrasado — e sai para o trabalho. Vai pensando no projeto da casa, no filho que tirou nota ruim na escola, no pai que está doente. Lembra que precisa começar uma dieta e que está muito sedentário. Sente saudade dos que já se foram. O dia mal começou e você já viaja pela cidade de pedras que acordou com a esperança cansada.

Todo dia é tudo igual. Parece que nada muda. O metrô lotado de gente quieta e as ruas gritando o barulho das buzinas. Os esfomeados pedindo dinheiro no sinal para carros apressados. O cheiro da poluição dos rios e da miséria. As árvores cada vez mais dando lugar ao cimento. O dia sempre amanhecendo em suas cores e luz, mas a vida se tornando cinza.

Você se finge indiferente a tudo isso. Está com pressa. Olhar o que te fere dói. Como assumir as próprias culpas, é pesado demais carregar a dor do mundo. Lá fora há tanta indiferença; as pessoas não sorriem à toa, não notam a bondade que insiste em sobreviver no meio da cidade. Tem um andarilho dividindo o pão endurecido com seu fiel vira-lata, e a multidão segue absorvida por seus próprios pensamentos. Nossas cobranças e nossas falhas, tudo fica escondido bem no fundo da alma, à espera de um dia quente, de uma luz alegre.

Como o mundo que acorda triste com os ataques terroristas, você sente um vazio sem fim. Logo de manhãzinha já se vê as notícias de mais homens ajoelhados que tiveram o pescoço explodido. Homens enjaulados que foram afogados vivos. Como viver em um mundo que acorda sob o eclipse total do coração?

Você se sente sozinho. O horizonte sem sol é um poço de dúvidas. Para que tanta maldade? Qual é o sentido disso tudo? Aonde a vida irá te levar se, mesmo você fazendo certo, vira e mexe, dá errado? O seu parente é assassinado num assalto, seu amigo jovem morre de câncer. Seu cachorro se perde e nunca mais volta. Dias atrás você perdeu o emprego.

No meio a tanta fome e tristeza, entre violência, guerras e medo, você se sente pequeno. Mas, mesmo assim, pela janela do seu coração, você quer acenar para a vida como quem assiste a banda passar. Apesar de toda perda, quer acreditar que para cada pergunta haverá uma reposta. Mesmo quando o dia amanhecer cinzento e tudo feder a falsidade, e amargo for o sabor do mundo, você quer continuar acreditando na bondade.

Há muita coisa triste, sim. Mas também há muito por fazer, há tanto a se realizar e aprender. Ser feliz é tudo isso. Até quando nos tornamos vazios — vazios de alegrias, de sonhos e de prazer — estamos nos preparando para compreender nossos pensamentos mais íntimos.

Esvazie-se. Quando dentro de você não existir mais nada (nada de medo, de dores, de culpa e pessimismo), sua solidão te levará a você mesmo. Às vezes o sol é inclemente, tem dias que o vento da chuva nos fere o rosto e a alma, e nem sempre vemos cores vivas na estação das flores.

A felicidade vive fugindo da gente. Temos tantas obrigações em um mundo tão louco que sobra pouco tempo para repararmos na beleza da simplicidade da vida que nos cerca.

Acredite. A esperança chega inesperadamente, como um pássaro que vem cantar em nossa janela. Como a vida que recomeça depois de toda perda.


Postado no Bula


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