12 março 2015

Por que a elite brsileira é burra?



Mailson Ramos*

A elite brasileira é burra. Não soa bem o adjetivo sem a posterior explicação: é burra porque jamais se preocupou com a condição do país, mas sim com a manutenção do status quo, a centralização de seu poder, de suas riquezas e de sua influência. 

A elite brasileira jamais derramou uma gotícula do seu valioso suor com as questões políticas desta terra, afinal, todos os problemas do Brasil foram sempre endereçados aos pobres, à classe trabalhadora. 
A elite brasileira conserva traços tão burgueses e vazios ideologicamente que permaneceram no ostracismo de sua acomodação perene até ser fustigada pela notícia de que um ex-metalúrgico tinha se tornado presidente da República
Odioso sempre foi o sentimento desta classe em relação aos governos petistas. Afinal, é impossível se acostumar com gente nova nos aeroportos, nas universidades, nos corredores dos shoppings e nos salões nobres dos museus.
A elite brasileira é burra porque nunca apresentou propostas contrárias aos governos instalados desde 2002. Jamais vão apresentar. 
Não sabem ir às ruas, protestam dos sofás, deglutem esfomeados as notícias de uma imprensa contaminada por esta mesma patologia que os faz acéfalos. Papagaios de pirata e seguidores de ideologias são eles. Deveriam se envergonhar de não conhecer a política e a democracia.


Incapazes que são de apresentar um debate sério e profundo sobre as reais condições da política nacional neste momento, confortam-se em bater panelas das janelas de seus luxuosos apartamentos. Não se ouvem e querem fazer ouvir.

Se a elite estivesse mesmo comprometida a debater a política – como a mídia e o judiciário também não estão – poderia haver espaço para um diálogo necessário. 

Mas não se pode esperar muito de quem ocupa espaço diariamente nas redes para afrontar até mesmo a vida pessoal de políticos.
Não se pode aguardar a reação democrática de quem, sem fundamento jurídico, tenta imprimir a ideia de impeachment. A elite brasileira é burra porque se confronta unilateralmente com o povão. 
Não é, sem o apoio deste, que se poderá mover um só grão de areia no Planalto. Por isso, e somente por isso mesmo, houve quem aconselhasse um banho de povo aos candidatos da direita. Com o espírito tranquilo e sem nenhuma amargura no que escrevo, arrisco dizer que a elite é burra e pior: tem se tornado golpista.


A democracia brasileira, esta jovem assediada, exala suspiros afanosos. Querem desgastá-la, instituir novos paradigmas democráticos que de democráticos só tem o nome. 

Quando não falam em golpe, determinam uma intervenção militar; ou numa terceira hipótese o famigerado impeachment. E se por acaso, nenhuma das três alternativas anteriores encontrarem coro, eis a renúncia de Dilma Rousseff.


Bom definir: a elite brasileira não sabe o que quer. O melhor seria mesmo se a deglutição do noticiário noturno ainda prendesse no sofá os estereotipados beócios ao estilo de Homer Simpson, como diria um célebre apresentador de telejornal aos seus telespectadores.

A elite brasileira é ainda anacrônica. Exige golpe, intervenção militar, regresso da ditadura. Querem reviver o tempo em que todos os papéis da sociedade eram estabelecidos pelo poder estatal. Seria a volta da ordem: pobres, pretos e periféricos de um lado, a elite soberba do outro. Para não alongar, devo dizer que a elite, ainda que burra, tem todo o direito de protestar e expôr suas reivindicações.

Mesmo que não conheçam a democracia devem conhecer e usufruir os direitos que têm. Mas a compreensão dos direitos não os transforma em seres dialógicos; muito pelo contrário. A elite se aglutina a uma direita ultraconservadora com o intuito de mascarar um golpe de Estado. Aliás, a elite é a própria direita.

Não será possível remodelar uma sociedade onde os mais poderosos estão com os olhos voltados para os umbigos. 

É um caminho cíclico, próprio ao locus brasiliensis: pobres de um lado, ricos do outro. Todas as vezes em que as políticas determinarem uma alteração deste estado, as batalhas serão iminentes. 
Tenho debatido sobre esta condição de ódio que prefiro adjetivar com outro conceito: ojeriza. Estamos falando de ojeriza de classe, pura e insensível. E é este sentimento que tem construído, na elite, sua face maniqueísta.
Perde com isso o Brasil, a sociedade, a política, a democracia. Difícil é pensar que, quando nada dá certo por aqui, os amantíssimos brasileiros que são capazes de panelaço e buzinaço, partem para a Europa ou os Estados Unidos. Esta é a nossa elite. Burra e covarde.


*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Nossa Política e Opinião e Contexto. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.


Postado no Pragmatismo Político em 12/03/2015

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